26 de outubro de 2007

Tecedeiras querem dar fio condutor à tradição


Com teares centenários e 20 anos de existência, a Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola continua a preservar a tradição e assegura os postos de trabalho a três mulheres.

As mãos enredam-se pelas linhas. Os pés, colocados estrategicamente nos pedais, descem e sobem, num movimento já ritmado. A tábua, puxada à força dos braços, junta as linhas, a lã ou os bocados de retalho, consoante a tapeçaria que se faz. Atrás dos teares, que já perderam a conta à idade, sentam-se, normalmente, três mulheres. Porém, na Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola, por agora, apenas Adélia Santos e Maria Helena mostram, a quem passa a caminho do Castelo, a arte de bem tecer, uma vez que a terceira tecedeira está de baixa médica.

"Isto era o que se fazia no concelho. Antigamente, toda a gente tinha um tear em casa. Antes do 25 de Abril ainda existiam umas tecedeiras. Nos anos 80 já eram muito poucas. Começaram a aparecer os cobertores e os edredões e as pessoas deixaram de tecer em casa", lembra Adélia Santos, de 69 anos.
Assim, na década de 80 foi efectuado um estudo sobre a tecelagem tradicional no concelho de Mértola. O resultado deste trabalho viria a demonstrar que, embora esta fosse uma tradição secular nesta região e transmitida de geração em geração, a tendência era para a sua extinção. Tendo em conta a importância cultural desta actividade para o concelho, foram criados os dois cursos de tecelagem, promovidos pela Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM). Hoje, a oficina de tecelagem assegura o posto de trabalho a três mulheres e preserva uma das riquezas patrimoniais da Vila Museu.
"Há 21 anos vim dar um curso e por aqui fiquei", conta Adélia. E acrescenta que "na altura, ainda ficaram a trabalhar algumas raparigas, mas acabaram por ir embora, uma vez que se trata de um trabalho muito pesado".
Adélia começou a tecer aos 11 anos, mais ou menos, na mesma altura que adquiriu um tear, com o qual ainda hoje trabalha. "Talvez tenha custado uns 100 escudos. Este tear pertencia a uma senhora velhota, que o tinha herdado da sua avó e, ao que parece, já tinha sido comprado a outra pessoa", diz.
Sentada no tear, entre paus toscos e linhas estendidas ao comprido, Adélia vê chegar os turistas. Está a fazer uma manta por encomenda. No lado oposto, Maria Helena mexe nas sobras dos tecidos de pano. Alonga os braços, ouve-se o bater da tábua e o retalho, esse, fica suturado. Volta a passar o bocado de tecido por baixo das linhas, a tábua bate novamente, os pés continuam a andar nos pedais. Os mesmos movimentos repetem-se vezes sem conta. "Temos de estar sempre a trabalhar com os pés e bater a tábua com os braços. É muito cansativo e um trabalho muito demorado", explica Adélia. No entanto, Maria Helena acrescenta que, "apesar de tudo, é um trabalho que precisa de ser feito com gosto".

Tecedeiras dizem que são necessários mais apoios à actividade

As três mulheres já passaram o saber às gerações mais novas, através de cursos que leccionaram no Centro de Emprego e Formação Profissional. No entanto, Adélia refere que "as raparigas fazem o curso, de nove meses ou de um ano, mas não ficam aptas a fazer tudo. Depois, como isto não é um trabalho que dê dinheiro acabam por ir embora. As raparigas novas não querem estar presas no meio de todos estes paus, durante um dia inteiro".
Temem que as linhas da tradição não fiquem "costuradas" nos mais novos e que se perca o fio à meada. Neste sentido, Adélia diz que "se não houver grandes apoios à tecelagem é um património que se vai acabar por extinguir".
A Câmara Municipal de Mértola paga a renda do espaço, a conta da electricidade e atribuiu, para fazer face às despesas do espaço, um subsídio de 2.500 euros. Contudo, Adélia conclui que "o Governo tem de olhar para estas questões, porque sem apoios as pessoas mais novas não ficam a trabalhar como tecedeiras".
Maria Helena começou a tecer apenas aos 30 anos. Há 20 anos que está nas oficinas. "Na época, vi um anúncio no ‘Diário do Alentejo’ da abertura de um curso em Mértola. Inscrevi-me e por aqui fui ficando". Deste então, muitas das tradicionais mantas de lã de Mértola foram produzidas no seu tear. As fases de concepção desta peça de agasalho, tantas vezes usada pelos pastores da planície, saem-lhe da boca com a mesma facilidade que as executa. E garante que "as ovelhas campaniças é que têm boa lã para este tipo de trabalho". Maria Helena explica: "Trabalhando sete a oito horas por dia, levamos mais de um mês para fazer uma manta".
As mantas tradicionais conservam as suas duas cores: branco e castanho. A lã é virgem e é retirada das ovelhas que deambulam na região. Uma manta custa 545 euros e Adélia considera que "é muito para quem compra e pouco para quem faz". No entanto, das mãos destas mulheres sai uma grande variedade de produtos – mantas, coadeiros, tapetes, alforges, meias, gorros, xailes, entre outros.
As tecedeiras continuam a laboração em teares centenários para lembrar aos mais novos que a tradição, essa, é antiga e para preservar.

In: Diário do Alentejo de 26 de Outubro de 2007.
Texto Bruna Soares Foto José Ferrolho

2 comentários:

Ana Rita Ramos disse...

Será possivel saber informações sobre cursos de tecelagem?

Ricardo Rosa disse...

A Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola não está, de momento, com nenhum projecto nesta área.

Contudo, se tal acontecer, será publicitado neste espaço.

se pretender mais informação, envie email para cotmertola@gmail.com